sábado, junho 03, 2006

A estranheza da vida

A vida é algo de muito estranho e bastaram-me muito poucos anos para o reconhecer. Lembro-me muito bem de uma boneca que quis mais do que me lembro de alguma vez querer um objecto. Era pequenina e fiquei encantada perante a beleza daquilo que via na montra. Nunca a pedi, embora fosse por demais óbvio que a queria. Quando a recebi, alguns meses mais tarde, fiquei extasiada! E como me disseram depois, os meus olhos adquiriram um brilho fabuloso. Andava com ela por todo o lado e era giro de ver porque eu era muito pequenina e carregava a boneca (não era um nenuco, embora parecida e ainda maior), por cima dos ombros, um bebé a pegar num bebé. Cortei-lhe o cabelo, pintei-a, mudei-lhe as roupas, sujei-a, fi-la passar por imenso, acredito que se a boneca fosse de carne e osso eu seria julgada por maus tratos a menores!
Há poucos dias encontrei a boneca por acaso e decidi pô-la num caixote para caridade. Sem hesitações. Vi-a, peguei-lhe e meti-a na caixa. É um paralelo daquilo que sucede com as relações: primeiro queremos muito e depois, com o passar do tempo, o querer esmorece ou acaba e não há alternativa a não ser metê-la na caixa e dá-la a outra pessoa. E é isto que não compreendo: porque é que gastamos tanto tempo e energia numa coisa que, mais tarde ou mais cedo, iremos rejeitar? Há coisas que queremos e conquistamos para sempre, daí que estejamos sempre a arriscar, mas mesmo assim, porquê esforçar-nos por uma raridade?

10 comentários:

Pedro disse...

Porque enquanto a tiveste, valeu a pena...

Alien David Sousa disse...

Nomyia, achei piada ao teu texto porque também eu um dia decidi cortar o cabelo a uma boneca minha, fui mais longe, pintei-lhe o cabelo...etc.
Mas, como eu digo, há sempre um mas; aqui vou contradizer o teu texto, ou a tua linha de raciocinio. Eu ainda tenho a boneca. E não tenho 12 anos. Está guardada. Não sei porquê, mas existem certas recordações da minha infancia que me são difíceis de dar a outrem. A boneca de cabelo azul vai ficar para um filha mninha ( quando a tiver ) se ela quizer uma boneca PUNK.
Isto tudo para dizer que não concordo contigo. Eu não preciso da boneca, ela está dentro de sacos na arrecadação, mas eu sei onde! ;)
bjs
p.s só uma questão: eu já tive relações amorosas que acabaram, mas a amizade permaneceu, essa não foi para outra pessoa, permaneceu comigo.

negative creep disse...

sabes que acontece me cenas semelhantes embora não seja com objectos mas com situações. quando as faço muitas vezes, mesmo que goste, começo me a cansar e tenho de parar. pa voltar a ganhar vontade. tudo perde o seu interesse, eventualmente.

gone disse...

Não concordo completamente com aquilo que escreveste, mas entendo e, obviamente respeito a tua opinião...
Mas não concordo unicamente porque sinto as coisas de forma diferente de ti, possivelmente. Sempre fui muito apegada às coisas, tanto pessoas como objecto. Todas as coisas que quis muito terão sempre lugar no meu coração... E, para teres ideia, ofereci para caridade todos os meus brinquedos de infância, mas alguns - os especiais - ficaram guardados comigo... Simplesmente não consigo desfazer-me deles!

Mas vendo as coisas da perspectiva da generalidade das pessoas, penso que acabas por ter uma opinião que mais de ajusta à maioria das pessoas. Penso que o que descreves acontece à maioria... Querer, querer e querer ainda mais para, tempos depois, fazer a mesma pergunta: "Eu quis isto?"...
Será a condição humana? :)

Desculpa a extensão do comentário.
Um beijinho grande!

Nomyia disse...

Estão à vontade para discordarem... eu peguei numa experiência pessoal, e é claro que estas variam consoante a pessoa.
Marta: Podes fazer comentários grandes à vontade!Eu leio na mesma:p
*****

mitsu disse...

Não és a única. Quando era criança a minha avó levou-m a passear e numa banca havia figurinhas do Pai Natal. Umas eram a imagem clássica do velhote k tanto nos faz sonhar e outras tinham umas ligeiras "modificações" (seguravam num ramo de flores azuis e rosa).
Eu preferi a 2ª sabe-se lá porquê. Lembro-m k a minha avó até insistiu k as otas eram + bonitas, mas eu escolhi AQUELA figurinha. Ainda hj o tnho kmo recordação dela e de 1 dos momentos fantásticos k ela me fez viver!

bjs

Luisa Seabra disse...

o problema é a crescente tendência para o consumismo e emoções fugazes... e é uma tendência natural, embora eu seja uma mistura entre essa tendência e a tendência da Marta... eu sou muito apegada às coisas, mas quando me farto delas, o q é frequente, não as "deito fora", dou um tempo... mais tarde o apego volta, e isso acontece sempre... mesmo com as pessoas... os meus amigos mais chegados sabem q sou assim e não levam a mal... de vez enquando desapareço por um ou dois meses, mas passado esse tempo telefono-lhes morta de saudades e andamso num frenesim de encontros, saídas e jantares durante meses...

Racas disse...

Percebo exactamente o que queres dizer. Eu penso que as raridades são as que mais valem a pena. São as que dão mais prazer enquanto lutamos por elas e depois quando a temos. Mesmo que um dia o entusiasmo passe, foi tao maravilhoso enquanto durou, deixou tão boas lembranças e histórias para contar. Quando tiver passado, vamos querer outras raridades, vamos lutar por elas. É um ciclo. É a vida.

poca disse...

porque a vida é assim... feita de momentos... e porque as experiências por que passas, deixam em ti marcas e fazem de ti a pessoa que és a cada momento...
porque para algo ser valioso, não é preciso que seja nosso para sempre...
e porque a beleza das coisas está em aproveitar o aqui e agora, sabendo retirar ao máximo de forma a que o melhor permaneça em nós...
porque, porque, porque....

gosto de te ler... gosto da maneira como encadeias o pensamento e o soltas... fluído...
beijinhos

Hizys disse...

eu nao consigo dar certas bonecas para a caridade...mas nao vale a pena guardar algo que nao se sente, é um esforço vazio e despropositado... assim acontece com as pessoas... =(